A importância da saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP

A importância da saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP

É um acontecimento muito significativo que os Emirados Árabes Unidos (EAU) tenham anunciado a sua saída abrupta da OPEP, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo. Os emirados eram membros mesmo antes de se tornarem um Estado-nação em 1971, considera o editor de economia da BBC, Faisal Islam.

Cristina Sambado - RTP /
Lisi Niesner - EPA

A OPEP é a organização composta principalmente por exportadores de petróleo do Golfo, que durante muitas décadas controlou o preço do petróleo bruto, diminuindo ou aumentando a produção e alocando quotas entre os seus membros. Desempenhou um papel vital nas crises petrolíferas da década de 1970, que, por sua vez, transformaram a política energética global.

Embora a produção da OPEP seja dominada pela Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos (EAU) possuíam a segunda maior capacidade de produção ociosa. Por outras palavras, eram o segundo produtor de equilíbrio mais importante, capaz de aumentar a produção para ajudar a aliviar os preços.De facto, foi precisamente isto que levou a reconsiderações a longo prazo da posição dos EAU. Simplificando, os Emirados Árabes Unidos queriam utilizar a considerável capacidade em que tinham investido.

As quotas da OPEP limitavam a sua produção a 3-3,5 milhões de barris por dia. Os sacrifícios decorrentes da adesão à Organização dos Países Exportadores de Petróleo, em termos de perda de receitas, estavam a ser feitos de forma desproporcionada pelos EAU.

No entanto, segundo o editor de economia da BBC, Faisal Islam, o timing desta decisão sugere consequências da guerra com o Irão. A tensão no Golfo afetou a relação dos EAU com o Irão e pode afetar a sua já tensa relação com a Arábia Saudita.

Quanto à OPEP, este é um grande golpe numa altura em que se colocam questões significativas sobre a sua coesão a longo prazo.

“Guerra” de preços entre Abu Dhabi e Riade
Não se trata apenas da possibilidade de os Emirados Árabes Unidos, puderem retomar totalmente o fornecimento do seu petróleo ao mercado por via marítima ou por oleoduto, provavelmente procurarão uma produção de cinco milhões de barris por dia. A Arábia Saudita pode responder com uma guerra de preços do petróleo que a economia mais diversificada dos EAU poderia suportar, mas outros membros mais pobres da OPEP talvez não.

Altos funcionários dos Emirados Árabes Unidos falam sobre novos oleodutos a partir dos campos petrolíferos dos Emirados Árabes Unidos em Abu Dhabi, contornando o Estreito de Ormuz e seguindo em direção ao porto subutilizado de Fujairah.

Já existe um oleoduto em uso intenso atualmente, mas será necessária mais capacidade para lidar com o aumento da produção e com a mudança permanente na fluidez e no custo do tráfego de petroleiros no Golfo.Para já, é claro, durante o duplo bloqueio do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, este não é o principal acontecimento nos mercados petrolíferos, afetando os preços do petróleo, gás, gasolina, plásticos e alimentos.

Embora o mundo esteja compreensivelmente focado no petróleo a 110 dólares por barril, esta é, no entanto, uma razão para não descartar a possibilidade de que possa estar mais próximo dos 50 dólares algures no próximo ano – se a situação no Estreito for resolvida, por exemplo, a tempo das eleições intercalares nos EUA ainda este ano.

A OPEP é menos importante para os mercados petrolíferos mundiais do que era na década de 1970, sendo que a quota de 85% do petróleo comercializado internacionalmente que detinha nessa altura era hoje algo em torno dos 50%.

O petróleo é também menos crucial para a economia mundial do que era na década de 1970. A OPEP tem influência agora, mas não um monopólio. Não pode, por assim dizer, manter o mundo refém.

Hidrocarbonetos serão substituídos por outras fontes de energia

Faisal Islam recorda que ouviu o antigo ministro saudita do Petróleo, Sheikh Yamani a afirmar que, “a Idade da Pedra não terminou porque o mundo ficou sem pedras. A Era do Petróleo não terminará porque o mundo ficará sem petróleo." Isto prenuncia um mundo onde os hidrocarbonetos serão substituídos por outras fontes de energia.

Uma forma de interpretar a ação dos EAU é como um sinal de um mundo com menor dependência do petróleo, e outros indícios surgiram no contexto atual: os investimentos da China na eletrificação ajudaram a amortecer o impacto económico da subida dos preços do petróleo e do gás.

Segundo alguns cálculos, a eletrificação de automóveis, camiões e comboios na China reduziu a procura de petróleo na segunda maior economia do mundo em um milhão de barris por dia. A procura global de petróleo poderá atingir um nível estável à medida que esta tendência se acelera em todo o mundo.

Neste caso, faz sentido angariar o máximo de dinheiro possível com as reservas de petróleo o mais rapidamente possível, antes que a procura entre em colapso. Os Emirados Árabes Unidos possuem poderio financeiro e uma economia parcialmente diversificada, através dos serviços financeiros e do turismo.

Muito dependerá de como será o novo normal quando as hostilidades no Golfo cessarem.

A saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP poderá desencadear um efeito dominó, e haverá uma pressão considerável sobre a Arábia Saudita.Quando os petroleiros voltarem a atravessar o Estreito, ou se os EAU intensificarem os seus esforços para construir novos oleodutos, o petróleo dos Emirados Árabes Unidos fluirá como nunca antes, sem as restrições impostas pelos compromissos da OPEP.

Isto terá pouco efeito sobre os bloqueios atuais. Mas poderá mudar tudo mais tarde.
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